

Risco, no vocabulário do mercado, virou sinônimo de oscilação de preço: quanto mais um ativo balança, mais arriscado ele seria. Warren Buffett rejeitou essa definição por escrito, e a rejeição está em um documento público e datado — a carta anual da Berkshire Hathaway de 1993. Nela, ele define risco como "a possibilidade de perda ou dano" e lista cinco fatores que, segundo ele, determinam o risco de um investimento. Nenhum dos cinco é a variação diária do preço. E é essa lista que este artigo traduz para uma operação de crédito.
"Risco vem de não saber o que você está fazendo" é provavelmente a frase mais reproduzida do investidor em português. Ela não aparece em nenhuma carta anual assinada por Warren Buffett. A frase vem de uma reportagem de Jim Rasmussen no jornal Omaha World-Herald, de janeiro de 1994, sobre uma palestra que Buffett deu na Columbia Business School no fim de 1993. O levantamento de origem da citação registra que o texto entre aspas foi comprimido pelo repórter, juntando trechos que não eram adjacentes na fala.
Isso não torna a ideia falsa — torna a atribuição imprecisa. E há uma versão melhor disponível: a que ele mesmo escreveu. Na carta anual da Berkshire Hathaway de 1993, assinada por ele e publicada no site da companhia, a definição está escrita com todas as letras: risco é "a possibilidade de perda ou dano". Na mesma carta, ele descarta o beta — a medida acadêmica de oscilação — nestes termos: "para donos de um negócio, e é assim que pensamos os acionistas, a definição acadêmica de risco está tão fora do alvo que produz absurdos".
Depois de recusar o beta, Buffett escreve: "os principais fatores que influenciam essa avaliação são" — e lista cinco. A coluna da direita traduz cada um na pergunta correspondente para quem, em vez de comprar uma participação numa empresa, empresta dinheiro a ela:
| O critério, como está na carta de 1993 | A pergunta equivalente em uma operação de crédito | |
|---|---|---|
| 1 | A certeza com que as características econômicas de longo prazo do negócio podem ser avaliadas | Dá para entender como esta empresa gera caixa? Há quanto tempo ela opera, em que setor, com que faturamento? |
| 2 | A certeza com que a administração pode ser avaliada, tanto na capacidade de realizar o potencial do negócio quanto na de empregar bem o caixa | Quem administra a empresa tem histórico verificável? Há restrições em nome da empresa ou dos sócios? |
| 3 | A certeza de que a administração vai canalizar os frutos do negócio para os acionistas, e não para si própria | O que garante que o dinheiro chega até quem financiou? Qual o instrumento jurídico, quais as garantias, quem cobra em caso de atraso? |
| 4 | O preço de compra do negócio | A taxa contratada paga pelo risco assumido? Preço, aqui, é a taxa — e taxa baixa demais para o risco é o mesmo erro que pagar caro por uma empresa. |
| 5 | Os níveis de tributação e de inflação, que determinam o quanto o retorno em poder de compra do investidor é reduzido em relação ao retorno bruto | Quanto sobra depois do imposto e da inflação? No crédito privado o rendimento é tributado na fonte pela tabela regressiva, e o que interessa é o que resta acima do índice de preços. |
Fonte: carta anual aos acionistas da Berkshire Hathaway, 1993, publicada em berkshirehathaway.com. Tradução livre; o texto original está em inglês.
Os cinco critérios têm uma coisa em comum, e é o que Buffett está dizendo: todos são sobre o que se pode apurar antes de investir. Nenhum depende de acompanhar cotação. É por isso que a definição dele funciona particularmente bem em crédito privado, que é justamente um ativo sem cotação.
Aqui mora a confusão que a definição de Buffett resolve — e que o vocabulário do setor costuma piorar. Uma operação de crédito privado não aparece oscilando no extrato porque ninguém a reprecifica todos os dias. Não existe mercado secundário formando preço para aquele contrato. É o que se chama de ausência de marcação a mercado, e é uma característica contábil, não uma proteção.
Dizer que o crédito privado tem "baixa correlação" com a bolsa embaralha as duas coisas, porque correlação se calcula entre duas séries de preço e uma delas não existe. O risco continua lá, inteiro: ele é o de a empresa não pagar. A diferença é que ele não avisa pelo gráfico — aparece quando a parcela vence. Por onde um choque econômico chega a uma carteira de crédito, e com quanto tempo de atraso, está em investimentos em crise.
Há ainda uma proteção que existe do outro lado e não existe aqui: depósitos e alguns títulos de renda fixa contam com o Fundo Garantidor de Créditos, uma associação civil mantida pelas próprias instituições financeiras, que devolve até R$ 250 mil por CPF e por conglomerado quando um banco quebra. Crédito privado não tem essa cobertura. Por que a cobertura do Fundo Garantidor de Créditos não alcança operações de crédito privado está explicado em P2P lending e a ausência do FGC.
Critério só vale se houver onde checar. Numa operação de crédito a empresas, os cinco viram isto:
O inventário completo dos riscos de uma operação de crédito P2P, um a um, com as formas de mitigação, está em o P2P é seguro. E quem decide o quê dentro de uma operação, e o que dá para conferir de fora antes de aplicar, está em governança no crédito P2P.
Buffett escreve como acionista, e é comum ver o P2P descrito como uma forma de "investir como dono". Não é. Quem entra em uma operação de crédito é credor, e a estrutura do retorno é oposta à do sócio.
O acionista participa do que a empresa produzir: se o negócio crescer dez vezes, a participação dele acompanha. O credor, não. No melhor cenário possível, o credor recebe exatamente o que está no contrato — juros e principal, na data combinada. No pior, perde o principal. O ganho é limitado para cima e a perda não é limitada para baixo na mesma proporção. É uma assimetria, e ela muda a conclusão prática: para o acionista, um acerto grande compensa vários erros; para o credor, não existe acerto grande — existe a taxa contratada, e ela precisa cobrir os erros. Por isso a diversificação em crédito não é conselho genérico: é aritmética.
Os critérios de Buffett continuam valendo, porque são sobre entender o negócio antes de arriscar dinheiro nele, e isso não muda com o instrumento. O que muda é o que se ganha em troca. A diferença entre ser credor e ser sócio de uma operação, e o que cada instrumento jurídico dá a quem investe, está em P2P com CCB ou SCP.
A frase é atribuída a ele, mas não aparece em nenhuma carta anual assinada. Ela vem de uma reportagem de janeiro de 1994 sobre uma palestra dele em 1993, com trechos comprimidos pelo repórter. O que está escrito por Buffett é a definição de risco como "a possibilidade de perda ou dano", na carta da Berkshire Hathaway de 1993.
Não necessariamente. Ativo sem cotação diária não oscila no extrato porque ninguém o reprecifica, e não porque o risco seja menor. Em crédito privado o risco é de não recebimento, e ele aparece na data do vencimento, não no gráfico.
Os cinco critérios não exigem balanço auditado; exigem informação suficiente para responder cinco perguntas. Setor, tempo de operação e faturamento respondem ao primeiro; regularidade da empresa e dos sócios, ao segundo; o instrumento jurídico e as garantias, ao terceiro; a taxa comparada ao risco declarado, ao quarto; imposto e inflação, ao quinto. Se a apresentação da operação não permite responder a três dos cinco, a decisão não é sobre risco — é sobre confiança, que é outra coisa.
Vale a parte do método e não vale a parte do retorno. O método — entender o negócio, avaliar quem o administra, verificar como o dinheiro chega até você e comparar preço com risco — funciona igual nos dois. O retorno, não: o acionista participa do crescimento, o credor recebe o contratado. Confundir os dois é o erro que faz alguém aceitar risco de sócio esperando pagamento de credor.
Aviso. Este conteúdo é informativo e não é recomendação de investimento. As passagens da carta anual da Berkshire Hathaway de 1993 são tradução livre do original em inglês, disponível no site da companhia. A Wealth Money é uma correspondente bancária (Resolução CMN 4.935/2021) e atua em conjunto com instituições autorizadas pelo Banco Central do Brasil; o empréstimo é concedido exclusivamente a pessoas jurídicas. Investimentos em crédito privado, inclusive operações peer-to-peer, não contam com cobertura do Fundo Garantidor de Créditos e estão sujeitos ao risco de inadimplência do tomador, podendo resultar em perda parcial ou total do valor aplicado. Rentabilidade passada não é garantia de rentabilidade futura.

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